Ser pai também é cuidar do mundo emocional dos filhos

Com a proximidade do Dia dos Pais, propagandas, homenagens e fotografias costumam destacar presentes, passeios e momentos felizes em família. Tudo isso pode ter valor afetivo, mas a Psicologia nos convida a olhar para uma dimensão menos visível da paternidade: a presença emocional. Ser pai não se resume a prover, proteger ou estar fisicamente perto. Também envolve disponibilidade para perceber o filho, escutar o que ele sente, participar de sua rotina e transmitir, por meio de atitudes cotidianas, a mensagem de que ele é importante.

Durante muito tempo, a figura paterna foi associada principalmente à autoridade, ao sustento financeiro e à imposição de limites. Hoje, compreendemos que o pai também pode e deve ocupar o lugar do afeto, do cuidado e da comunicação. Isso não diminui sua autoridade. Ao contrário, torna os limites mais compreensíveis e fortalece o vínculo, porque a criança aprende que pode ser orientada sem ser humilhada, corrigida sem perder o amor e frustrada sem ser abandonada.

A presença emocional não exige um pai perfeito, disponível o tempo inteiro ou capaz de resolver todos os problemas. Exige um adulto suficientemente presente para demonstrar interesse verdadeiro. Ela aparece quando o pai interrompe por alguns minutos o que está fazendo para ouvir uma história, percebe uma mudança de comportamento, pergunta como foi o dia e espera a resposta, acompanha uma dificuldade escolar, brinca, ensina, reconhece um esforço e consegue pedir desculpas quando erra. São atitudes aparentemente simples, mas que ajudam a criança a construir uma sensação interna de segurança.

Na perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental, as experiências vividas nas relações mais importantes podem contribuir para a formação de crenças sobre quem somos e sobre o que podemos esperar das outras pessoas. Uma criança que se sente vista, acolhida e respeitada tende a desenvolver pensamentos mais próximos de “eu sou importante”, “posso pedir ajuda”, “meus sentimentos têm valor” e “não preciso acertar tudo para ser amado”. Já relações marcadas por indiferença, medo, críticas constantes ou imprevisibilidade podem favorecer interpretações como “não sou bom o suficiente”, “preciso me virar sozinho” ou “demonstrar sentimentos é perigoso”. Essas crenças não são determinadas por uma única experiência nem dependem exclusivamente do pai, mas a qualidade da relação paterna pode participar de sua construção.

Uma revisão sistemática realizada por Sarkadi e colaboradores (2008), reunindo estudos longitudinais, encontrou evidências de que o envolvimento paterno ativo e regular está associado a resultados positivos no desenvolvimento social, comportamental, psicológico e cognitivo dos filhos. O aspecto mais importante não era apenas morar na mesma casa ou cumprir uma obrigação formal, mas envolver-se diretamente na vida da criança. Isso ajuda a compreender por que presença não é simplesmente proximidade física: é participação.

Há pais que convivem diariamente com os filhos, mas conhecem pouco sobre seus medos, amizades, interesses e preocupações. Também existem pais separados que, mesmo não morando com a criança, preservam uma presença afetiva estável, cumprem combinados, acompanham decisões e demonstram interesse real. A distância entre as casas não precisa transformar-se em distância emocional. Para a criança, a previsibilidade do vínculo é essencial: saber que o pai aparece, responde, cumpre o que promete e não a coloca no centro dos conflitos entre os adultos.

Também é importante lembrar que a paternidade pode ser exercida para além do vínculo biológico. Pais adotivos, padrastos, avôs, tios e outros homens podem ocupar uma função paterna significativa quando oferecem cuidado, proteção, orientação e afeto. O reconhecimento dessas relações não apaga a história da criança, mas valoriza quem efetivamente participa de seu desenvolvimento. O que deixa marcas não é apenas o nome dado ao vínculo, e sim a qualidade da experiência construída dentro dele.

O pai também ensina sobre emoções pelo modo como lida com as próprias. Quando demonstra que homens podem sentir medo, tristeza, saudade, insegurança e ternura, ajuda os filhos a compreender que sensibilidade não é fraqueza. Meninos aprendem que não precisam esconder tudo o que sentem para provar força. Meninas podem construir referências masculinas mais respeitosas e seguras. Em ambos os casos, a criança percebe que emoções podem ser nomeadas, compartilhadas e reguladas, em vez de transformadas apenas em silêncio, agressividade ou afastamento.

Isso não significa que o pai deva contar todos os seus problemas ao filho ou inverter os papéis, fazendo da criança sua confidente. Cuidado emocional também envolve reconhecer limites geracionais. O adulto pode mostrar humanidade sem transferir à criança a responsabilidade de consolá-lo ou resolver questões que pertencem ao mundo dos adultos. Uma frase simples como “hoje estou preocupado, mas vou cuidar disso” ensina que sentimentos existem e podem ser enfrentados com responsabilidade.

No atendimento psicológico, é comum observar que muitas feridas relacionadas à figura paterna não surgem apenas de uma ausência completa, mas de uma presença difícil de alcançar. Filhos que cresceram tentando conquistar aprovação, evitando decepcionar ou buscando uma conversa que nunca aconteceu podem carregar esse esforço para outras relações. Na vida adulta, às vezes repetem a sensação de precisar provar valor, agradar para não perder vínculos ou aceitar pouco afeto por acreditarem que pedir mais seria exigir demais.

A Psicologia não busca culpabilizar os pais nem criar a ideia de que todos os sofrimentos dos filhos são causados pela família. Pais também carregam histórias, modelos aprendidos e dificuldades emocionais. Muitos foram educados por homens que nunca abraçavam, não conversavam e acreditavam que sustentar a casa era a única forma legítima de demonstrar amor. Reconhecer isso não significa repetir o mesmo modelo. A paternidade também pode ser um espaço de transformação: um homem pode oferecer aos filhos aquilo que não recebeu, aprender novas formas de se comunicar e construir vínculos mais afetivos do que aqueles que conheceu.

Para quem é pai, o Dia dos Pais pode ser uma oportunidade de refletir menos sobre o presente recebido e mais sobre a presença oferecida. O vínculo se fortalece quando os filhos sabem que podem procurar o pai diante do medo, percebem interesse verdadeiro pelo que dizem, conseguem errar sem acreditar que deixarão de ser amados e guardam lembranças de conversas, brincadeiras e momentos comuns. Não é necessário responder a tudo com perfeição. O mais importante é existir disposição para se aproximar e reparar aquilo que precisa ser reparado.

Para algumas pessoas, porém, essa data não é apenas comemorativa. Ela pode despertar saudade de um pai que faleceu, dor por uma relação distante, lembranças de abandono ou o sofrimento de pais que perderam seus filhos. Há ainda quem nunca tenha encontrado na figura paterna o cuidado que precisava. Por isso, homenagens precisam conviver com respeito às histórias que não cabem em uma fotografia feliz. Cada pessoa atravessa essa data a partir de sua própria experiência, e nenhuma delas deve ser invalidada.

Ser pai é participar da construção de uma memória afetiva que permanecerá mesmo quando os filhos crescerem. Nem sempre eles lembrarão do valor de um presente ou de todas as orientações recebidas, mas poderão lembrar de como se sentiam ao lado daquele pai: seguros ou ameaçados, ouvidos ou ignorados, aceitos ou constantemente avaliados. A paternidade emocionalmente presente não elimina conflitos e não impede que os filhos sofram. Ela oferece algo fundamental: a experiência de não precisar enfrentar tudo sozinhos.

Neste Dia dos Pais, talvez a homenagem mais profunda esteja nas relações que ainda podem ser cuidadas. Sempre há espaço para uma conversa mais verdadeira, um pedido de desculpas, um abraço menos apressado ou uma decisão de participar mais. Afinal, ser pai não é apenas ocupar um lugar na história de um filho. É contribuir, todos os dias, para que ele construa dentro de si um lugar de segurança, pertencimento e amor.

Patrícia Pires de Matos
Psicóloga Cognitivo-Comportamental e Psicopedagoga
Especialista em Psicologia Escolar
CRP 06/70064