Quantas vezes você já sofreu por algo que nem aconteceu?

Você já perdeu o sono imaginando uma conversa que ainda nem aconteceu? Já ficou angustiado pensando que algo poderia dar errado no trabalho, que alguém poderia se afastar, que uma notícia ruim poderia chegar ou que determinada situação terminaria da pior maneira possível? Às vezes, o acontecimento nem chegou, mas emocionalmente já estamos vivendo todas as suas possíveis consequências.

A mente humana tem uma capacidade importante: antecipar situações. É essa capacidade que nos permite planejar, organizar, prevenir riscos e tomar decisões. O problema começa quando antecipar deixa de ser planejamento e passa a ser sofrimento. Nesse ponto, o futuro deixa de ser apenas uma possibilidade e começa a ser vivido, no presente, como se fosse uma ameaça concreta.

Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), esse processo pode ser compreendido pelo modelo cognitivo desenvolvido a partir dos trabalhos de Aaron Beck. De forma simplificada, a TCC considera que não são apenas as situações que determinam como nos sentimos, mas principalmente a interpretação que fazemos delas. Entre um acontecimento e a emoção que surge existe um pensamento, muitas vezes rápido e automático, que influencia a maneira como reagimos.

Imagine uma pessoa que envia uma mensagem e não recebe resposta. O fato é simples: a mensagem ainda não foi respondida. Mas a mente pode rapidamente preencher aquilo que não sabe: “Ele está me evitando”, “Fiz alguma coisa errada”, “Perdeu o interesse” ou “Não sou importante”. Em poucos minutos, uma ausência de resposta pode ser interpretada como rejeição ou abandono, mesmo sem evidências suficientes para essa conclusão.

A TCC chama esses pensamentos rápidos de pensamentos automáticos. Eles surgem espontaneamente e, muitas vezes, são aceitos como verdade antes mesmo de serem questionados. Quando a ansiedade está elevada, esses pensamentos tendem a se concentrar em ameaças, riscos e consequências negativas.

É nesse cenário que também aparecem algumas distorções cognitivas. Uma delas é a catastrofização: imaginar que, se algo der errado, o resultado será muito pior do que provavelmente seria. Outra é a chamada previsão do futuro, quando a pessoa trata uma possibilidade negativa como se já soubesse que ela realmente acontecerá. O pensamento deixa de ser “isso pode acontecer” e passa a ser “isso vai acontecer”. E o corpo responde a essa previsão como se o perigo já estivesse presente.

No ambiente profissional, por exemplo, uma reunião marcada pelo chefe pode desencadear pensamentos como: “Será que fiz algo errado?”, “Será que vão me demitir?” ou “Será que perceberam que não estou dando conta?”. Antes mesmo da reunião começar, podem aparecer coração acelerado, tensão muscular, irritabilidade, dificuldade de concentração e desconforto no estômago. A situação ainda não aconteceu, mas a interpretação antecipada já produziu uma reação emocional e física.

Esse é um ponto central da TCC: pensamento, emoção e comportamento se influenciam mutuamente. Se interpreto uma situação como ameaça, posso sentir ansiedade; sentindo ansiedade, posso evitar, conferir excessivamente, buscar garantias o tempo todo ou tentar controlar cada detalhe. Esses comportamentos até podem trazer alívio por alguns minutos, mas, em muitos casos, acabam reforçando a ideia de que havia realmente um perigo que precisava ser evitado.

Por isso, trabalhar a ansiedade não significa ensinar alguém a pensar positivamente o tempo todo. A proposta é desenvolver um pensamento mais realista, flexível e baseado em evidências. Em vez de perguntar apenas “e se der errado?”, é possível acrescentar outras perguntas: “O que eu realmente sei até agora?”, “Que evidências tenho de que isso acontecerá?”, “Existe outra explicação possível?”, “Estou diante de um fato ou de uma previsão?” e “Se algo difícil realmente acontecer, quais recursos eu tenho para lidar com isso?”.

Outro aspecto importante é separar possibilidade de probabilidade. Muitas coisas são possíveis, mas isso não significa que sejam prováveis. A ansiedade frequentemente transforma uma pequena possibilidade em uma certeza emocional. E, quando isso acontece repetidamente, a pessoa pode passar boa parte do dia tentando resolver mentalmente problemas que ainda não existem.

Preocupar-se também pode dar uma falsa sensação de controle. Algumas pessoas sentem que, se pensarem bastante em tudo o que pode acontecer, estarão mais preparadas ou conseguirão impedir uma situação ruim. Mas preocupação excessiva não é sinônimo de solução. Muitas vezes, ela consome energia, prejudica o sono, interfere na concentração e reduz justamente a capacidade de lidar com aquilo que está acontecendo de verdade.

Uma estratégia simples é observar o pensamento antes de aceitá-lo como realidade. Quando perceber que sua mente está muito distante no futuro, experimente formular a frase com mais precisão: em vez de “isso vai dar errado”, pense “estou tendo o pensamento de que isso pode dar errado”. Essa pequena mudança ajuda a criar distância entre a pessoa e o pensamento. O pensamento continua existindo, mas deixa de ocupar automaticamente o lugar de um fato.

Quando os pensamentos antecipatórios começam a interferir no sono, no trabalho, nos relacionamentos, nas decisões ou na possibilidade de aproveitar o presente, é importante olhar para esse padrão com mais atenção. Na psicoterapia, é possível identificar pensamentos automáticos, compreender as crenças que os sustentam e desenvolver formas mais funcionais de interpretar e enfrentar situações de incerteza.

Talvez o futuro realmente traga dificuldades. Faz parte da vida. Mas existe uma diferença importante entre enfrentar um problema quando ele chega e vivê-lo dezenas de vezes dentro da própria mente antes mesmo de saber se ele acontecerá.

Da próxima vez que perceber sua mente criando cenários e tratando possibilidades como certezas, tente se perguntar: “Isso está acontecendo agora ou estou sofrendo por uma previsão?”. Às vezes, reconhecer essa diferença já é o primeiro passo para sair do futuro imaginado e voltar ao presente real.

Patrícia Pires de Matos

Psicóloga Cognitivo-Comportamental e Psicopedagoga

CRP 06/70064