Quando a filha também precisa ser acolhida

Muito se fala sobre o amor de mãe, sobre a importância da família e sobre o dever dos filhos de respeitarem seus pais. Mas pouco se fala sobre as filhas que cresceram sem se sentirem acolhidas dentro da própria casa.

Há mulheres que chegam à vida adulta carregando marcas profundas de críticas, cobranças, comparações, humilhações e falta de apoio emocional vindas justamente de quem deveria ter sido fonte de proteção. São filhas que, desde cedo, aprenderam a engolir o choro, esconder sentimentos, duvidar de si mesmas e buscar fora de casa o afeto que não encontravam dentro dela.

Quando uma mãe critica constantemente o corpo da filha, suas escolhas, seus sonhos, sua forma de ser ou sua capacidade, ela não está apenas “dando opinião”. Ela pode estar, pouco a pouco, construindo uma mulher insegura, culpada e com dificuldade de reconhecer o próprio valor.

Muitas dessas filhas crescem acreditando que não são boas o suficiente. Algumas entram em relacionamentos por carência. Outras se anulam para serem aceitas. Algumas tornam-se mães em momentos de vulnerabilidade, não por falta de responsabilidade, mas porque buscavam amor, pertencimento ou até uma forma de sair de um ambiente emocionalmente adoecedor.

Falar sobre isso não é desvalorizar a maternidade, nem negar que muitas mães também tiveram suas próprias dores. Mas reconhecer a dor de uma filha não significa atacar todas as mães. Significa apenas admitir que nem toda relação materna é saudável, acolhedora ou segura.

Existe uma cobrança social muito grande para que a filha ame, perdoe e agradeça sempre. Frases como “mãe é mãe”, “um dia você vai sentir falta” ou “ela fez o que pôde” podem até ser ditas com boa intenção, mas muitas vezes acabam silenciando dores reais. Uma coisa é reconhecer que uma mãe teve limitações. Outra é negar o impacto emocional que essas limitações causaram.

Muitas mulheres se tornam mães carregando feridas de filhas. E isso torna a maternidade ainda mais desafiadora. Elas tentam educar, proteger, trabalhar, estudar, sustentar e oferecer aos filhos aquilo que talvez nunca receberam: presença, carinho, diálogo e segurança emocional.

Ao mesmo tempo, quando vivem em ambientes familiares marcados por crítica e invalidação, essas mulheres podem se sentir constantemente esgotadas. Precisam trabalhar para sustentar os filhos, mas são criticadas por não estarem disponíveis o tempo todo. Precisam estudar para crescer profissionalmente, mas ouvem que não fazem o suficiente. Tentam impor limites aos filhos, mas muitas vezes são desautorizadas por outros adultos da casa.

A sociedade costuma julgar muito a mãe solo. Critica se ela trabalha demais, se está cansada, se busca ajuda, se tenta recomeçar ou se deseja ter uma vida própria. Mas poucas pessoas perguntam: quem apoia essa mulher? Quem segura sua mão quando ela também está no limite? Quem enxerga a filha ferida por trás da mãe forte?

Ser mãe não apaga a mulher. E ser filha não obriga ninguém a fingir que não foi machucada. Existem relações familiares que precisam de limites, distância emocional e, quando possível, reorganização da convivência. Nem sempre haverá diálogo. Nem sempre haverá reconhecimento. Nem sempre a pessoa que feriu terá consciência do que causou.

Por isso, muitas vezes, a cura não começa quando o outro pede desculpas. Começa quando a mulher consegue dizer para si mesma: “isso me feriu, isso me marcou, mas eu não preciso repetir essa história”.

Romper ciclos não é simples. Exige consciência, apoio, autocuidado e, muitas vezes, ajuda profissional. Exige aprender a colocar limites sem culpa, educar os filhos sem violência, reconhecer os próprios gatilhos e separar aquilo que pertence à história da filha daquilo que pertence à função de mãe.

Nesse processo, a Terapia Cognitivo-Comportamental pode ser uma importante aliada. A TCC ajuda a identificar pensamentos automáticos, crenças construídas ao longo da vida e padrões emocionais aprendidos em relações familiares difíceis. Muitas filhas crescem ouvindo críticas, comparações e invalidações e, sem perceber, passam a carregar uma visão distorcida sobre si mesmas, sentindo-se insuficientes, culpadas ou incapazes.

Na psicoterapia, é possível compreender como essas vivências influenciam a autoestima, os relacionamentos, a maternidade e a forma de lidar com conflitos. A TCC também auxilia no desenvolvimento de estratégias mais saudáveis para regular emoções, estabelecer limites, lidar com a culpa, fortalecer a autoconfiança e interromper ciclos de dor que podem atravessar gerações.

Buscar ajuda psicológica não significa fraqueza. Significa reconhecer que algumas dores não precisam ser carregadas sozinhas. Muitas vezes, a mulher que cuida de todos também precisa de um espaço seguro para ser ouvida, acolhida e cuidada.

Ser filha ferida não impede ninguém de ser uma boa mãe. Pelo contrário: quando essa dor é reconhecida e cuidada, ela pode se transformar em consciência, limite e desejo profundo de fazer diferente.

E fazer diferente talvez seja uma das formas mais bonitas de interromper um ciclo de dor.

Patrícia Pires de Matos
Psicóloga Cognitivo-Comportamental e Psicopedagoga
CRP 06/70064