Ser mãe nunca foi uma tarefa simples. Mas, nos dias atuais, além de cuidar, proteger, orientar e amar, muitas mulheres também carregam um peso silencioso: a pressão de serem perfeitas.
A sociedade criou uma imagem quase inalcançável da maternidade ideal. A mãe perfeita seria aquela que consegue dar conta de tudo: trabalha, educa, mantém a casa organizada, acompanha a vida escolar dos filhos, é paciente, emocionalmente equilibrada, presente e produtiva o tempo todo. No entanto, essa idealização da maternidade pode gerar sofrimento psíquico importante.
Segundo Donald Winnicott (1953), a criança não necessita de uma mãe perfeita, mas de uma “mãe suficientemente boa”, capaz de oferecer cuidado emocional real dentro de suas possibilidades humanas. Para o autor, é justamente a vivência genuína, com falhas naturais e reparações afetivas, que favorece o desenvolvimento emocional saudável da criança.
Ainda assim, muitas mulheres vivem tentando alcançar um padrão impossível de perfeição. Por trás de muitas mães fortes, existem mulheres cansadas, sobrecarregadas e emocionalmente exaustas. Mulheres que sentem culpa por acreditar que nunca estão fazendo o suficiente. Culpa por trabalhar demais. Culpa por perder a paciência. Culpa por desejar um tempo para si mesmas.
A maternidade real não é composta apenas por momentos felizes e idealizados. Ela também envolve medo, insegurança, renúncias, frustrações e sobrecarga emocional.
Do ponto de vista da Terapia Cognitivo-Comportamental, muitas mães desenvolvem pensamentos automáticos disfuncionais relacionados à cobrança excessiva e ao perfeccionismo, como: “eu preciso dar conta de tudo”, “não posso falhar” ou “uma boa mãe nunca se cansa”. Aaron Beck (1997) explica que crenças rígidas e distorcidas podem aumentar sofrimento emocional, ansiedade e sentimentos persistentes de inadequação.
Estudos recentes também apontam que a idealização da maternidade tem contribuído para o aumento do sofrimento psíquico feminino. Pesquisa publicada na Revista Foco (2025) destaca que a pressão social relacionada ao modelo da “mãe perfeita” favorece sentimentos de culpa, ansiedade, esgotamento emocional e frustração materna, especialmente quando existe grande distância entre a maternidade idealizada e a experiência real vivida pelas mulheres.
Além disso, pesquisas brasileiras sobre saúde mental materna mostram que a sobrecarga emocional das mães está frequentemente associada à dupla jornada, à carga mental invisível e à responsabilização quase exclusiva da mulher pelo cuidado familiar. Em muitos casos, essas mulheres seguem adoecendo em silêncio por medo de julgamento ou por acreditarem que demonstrar cansaço significa fracasso.
Mas mães também precisam de acolhimento. Precisam descansar. Precisam ser cuidadas. Precisam ser ouvidas. Filhos não precisam de mães perfeitas. Precisam de mães emocionalmente presentes, humanas e possíveis.
Talvez esteja na hora de substituir a cobrança pelo acolhimento. A comparação pela empatia. E, a perfeição pela verdade.
Neste Dia das Mães, talvez a reflexão mais importante seja lembrar que, antes de serem mães, existem mulheres que também sentem, choram, se cansam e precisam de cuidado.
Porque ser uma boa mãe não significa ser perfeita.
Significa amar inclusive aprendendo, errando e recomeçando ao longo do caminho.
Patrícia Pires de Matos
Psicóloga Cognitivo Comportamental

