Algumas relações são marcadas por uma alternância constante entre aproximação e afastamento. Em certos momentos, existe atenção, carinho, interesse e proximidade. Em outros, surgem o silêncio, a distância e a indiferença.
Essa instabilidade pode provocar ansiedade, insegurança e pensamentos repetitivos. A pessoa começa a se perguntar o que fez de errado, por que o outro mudou ou quando voltará a procurá-la.
Um dos fatores que fortalecem esse tipo de vínculo é a atenção intermitente.
Ela acontece quando alguém recebe atenção e carinho em alguns momentos, mas não consegue prever quando isso acontecerá novamente. Como não sabe quando receberá uma nova demonstração de afeto, passa a esperar intensamente por ela.
Quando a aproximação acontece, sente alívio, alegria e esperança. Quando o afastamento retorna, voltam a ansiedade, a dúvida e o medo de perder.
Essa imprevisibilidade pode aumentar o apego. A pessoa passa a valorizar intensamente cada momento de atenção e a tolerar situações que, em outras circunstâncias, provavelmente não aceitaria.
É importante lembrar que intensidade não é sinônimo de profundidade.Uma relação pode provocar emoções muito fortes e, mesmo assim, não oferecer segurança, estabilidade ou reciprocidade.
Talvez uma das reflexões mais importantes seja esta: você está se relacionando com a pessoa como ela realmente é ou com aquilo que acredita que ela poderá se tornar?
Quando existe idealização, a pessoa tende a valorizar o potencial do outro e minimizar sua realidade atual. Ela se prende ao que poderia acontecer caso o outro mudasse, tivesse mais tempo, amadurecesse ou estivesse emocionalmente disponível.
No entanto, uma relação precisa ser observada pelo que oferece no presente. Isso não significa exigir perfeição. Nenhuma relação está livre de conflitos, inseguranças ou momentos difíceis. A diferença está na disposição de ambos para conversar, reconhecer erros e construir caminhos.
Esperar uma mudança sem que existam atitudes concretas pode prolongar um sofrimento que já está oferecendo respostas.
Talvez você esteja vivendo mais uma expectativa do que uma relação quando passa grande parte do tempo interpretando o comportamento do outro, sente medo de expressar o que deseja, aceita menos do que gostaria, quase sempre toma a iniciativa e experimenta mais ansiedade do que tranquilidade.
Outro sinal importante aparece quando você coloca sua vida em espera enquanto aguarda uma definição.
Reciprocidade não significa que duas pessoas precisam demonstrar sentimentos exatamente da mesma maneira.
Uma pode ser mais comunicativa e a outra mais reservada. Uma pode expressar amor por palavras e a outra por atitudes. No entanto, ambas precisam participar da construção do vínculo.
Quando apenas uma pessoa procura, compreende, espera, justifica e tenta manter a relação, existe um desequilíbrio.
Uma relação não precisa ser perfeita para ser saudável, mas não deveria fazer alguém se sentir constantemente descartável, insuficiente ou confuso.
Por isso, talvez seja necessário deixar de perguntar apenas:
“Será que essa pessoa gosta de mim?”
E começar a perguntar:
“Como eu me sinto nessa relação?”
“Existe espaço para falar sobre o que eu preciso?”
“Eu me sinto escolhida ou apenas mantida por perto?”
“Estou vivendo algo real ou esperando que um dia se torne real?”
Reconhecer que uma relação não está acontecendo da maneira desejada pode ser doloroso. Muitas pessoas acreditam que se afastar significa desistir do amor ou não ter sido suficientemente pacientes. Mas, estabelecer limites não invalida o sentimento.
É possível gostar de alguém e reconhecer que essa pessoa não consegue oferecer aquilo de que você precisa. É possível compreender o momento do outro sem abandonar a própria vida. É possível sentir saudade e, ainda assim, escolher não permanecer em uma situação de incerteza.
Nem toda conexão precisa se transformar em relacionamento. Nem todo sentimento precisa ser sustentado para sempre. O amor não deveria exigir que alguém silencie suas necessidades, aceite migalhas afetivas e permaneça indefinidamente esperando por sinais.
Talvez a pergunta mais importante não seja apenas se o outro sente alguma coisa por você. Também é necessário perguntar: aquilo que essa pessoa demonstra e oferece é suficiente e saudável para você? Às vezes, parar de esperar não significa deixar de amar. Significa começar a se escolher.
Patrícia Pires de Matos
Psicóloga Cognitivo-Comportamental e Psicopedagoga
CRP 06/70064

