El Niño amplia riscos respiratórios e exige atenção à causa dos sintomas

A previsão de seca, calor e queimadas associada ao El Niño acende um alerta para a saúde respiratória, especialmente entre crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas. Segundo o Ministério da Saúde, a janela crítica dos impactos do fenômeno vai de outubro de 2026 a março de 2027. Nesse cenário, tosse, falta de ar e mal-estar exigem atenção à origem do quadro, pois a exposição a irritantes ambientais pode provocar sintomas semelhantes aos de infecções respiratórias. 

O órgão apresentou em agosto desse ano um plano de preparação e resposta do SUS, considerando efeitos distintos pelo país. Entre as projeções estão secas, estiagem e queimadas no Norte e Centro-Oeste e agravamento da seca e do calor no Nordeste. A exposição à fumaça, à poeira e ao ar seco pode irritar as vias aéreas e agravar doenças preexistentes, enquanto vírus e bactérias também podem estar envolvidos nos episódios respiratórios. 

“Uma pessoa exposta à fumaça pode apresentar irritação das vias aéreas e, ao mesmo tempo, ter uma infecção. Por isso, o relato de que os sintomas começaram em um dia seco ou após contato com poluentes é importante, mas não encerra a investigação. É preciso considerar a evolução do quadro, o histórico do paciente e os achados da avaliação clínica”, explica Alessandra Zacarias, biomédica e gerente regional de Produto para Diagnóstico Sindrômico da QIAGEN na América Latina. 

Conforme o guia do Ministério da Saúde sobre queimadas e incêndios florestais, as partículas finas presentes na fumaça podem alcançar regiões profundas dos pulmões e agravar doenças respiratórias. Esse efeito merece atenção em pessoas com asma e doença pulmonar obstrutiva crônica, que podem apresentar piora durante períodos de exposição. 

Sintomas semelhantes podem exigir condutas diferentes 

Ainda segundo Alessandra, reconhecer o que está provocando ou agravando os sintomas interfere nas decisões sobre tratamento, acompanhamento e medidas para evitar a transmissão de uma eventual infecção. 

“Antibióticos não tratam a irritação causada pela fumaça nem as infecções virais. A investigação ajuda a avaliar quando há indicação desses medicamentos e quando outras medidas são necessárias. Também é importante reconhecer que uma piora respiratória pode ter mais de um fator envolvido”, afirma Alessandra. 

Por indicação médica, quando há suspeita de infecção, os painéis respiratórios sindrômicos de PCR multiplex podem apoiar essa investigação. A tecnologia pesquisa simultaneamente o material genético de diferentes vírus e bactérias em uma única amostra, incluindo agentes como influenza, vírus sincicial respiratório e SARS-CoV-2, conforme a composição do painel. Há plataformas que disponibilizam resultados em aproximadamente uma hora. 

“Pesquisar diferentes agentes em um único exame pode reduzir o tempo para obter informações relevantes à decisão médica, inclusive quando existe coinfecção. Esse apoio pode ser especialmente útil em pacientes vulneráveis, nos quais identificar os microrganismos envolvidos pode influenciar o acompanhamento e a conduta”, explica. 

O resultado precisa ser interpretado em conjunto com os dados clínicos. Os painéis pesquisam um conjunto definido de agentes infecciosos e não identificam diretamente os efeitos da poluição. Um resultado negativo, portanto, não exclui todas as infecções nem confirma que o quadro seja exclusivamente ambiental. 

“Os testes respondem a uma parte da investigação. A presença de um agente deve ser relacionada ao quadro do paciente, assim como a ausência de detecção precisa ser analisada considerando os limites do exame. Essa integração é o que permite usar a informação laboratorial para orientar o cuidado”, conclui Alessandra. 

Durante episódios de fumaça e piora da qualidade do ar, reduzir a exposição aos poluentes faz parte da proteção à saúde. Dificuldade para respirar ou agravamento dos sintomas exige avaliação, sobretudo entre crianças, idosos, imunossuprimidos e pessoas com doenças respiratórias crônicas.