Contratar bem vai além de analisar currículos

Uma vaga precisa ser preenchida, os currículos chegam e alguém parece reunir a experiência desejada. Em meio à rotina e à necessidade de recompor a equipe, a decisão pode acontecer rapidamente. Mas o que, de fato, sustenta uma boa contratação? O currículo oferece informações importantes sobre a trajetória profissional, porém não responde, sozinho, como aquela pessoa poderá realizar o trabalho e lidar com as situações da função.

Contratar exige compreender o que a empresa precisa e o que pode oferecer. Antes de procurar um candidato, é necessário ter clareza sobre as atividades, as responsabilidades, as condições de trabalho e os resultados esperados. Quando a própria organização não consegue definir a vaga, aumenta a possibilidade de selecionar alguém com base em expectativas que nunca foram explicitadas. Depois, a frustração pode ser atribuída ao profissional, embora o desencontro tenha começado antes de sua chegada.

É nesse contexto que a seleção por competências ganha sentido. Ela considera conhecimentos, habilidades e atitudes relacionados às exigências concretas do cargo. Não basta afirmar que alguém precisa ser comunicativo, proativo ou trabalhar bem em equipe. Essas expressões precisam ter significado naquela realidade. A comunicação exigida de quem atende clientes, por exemplo, pode envolver escuta, clareza e manejo de conflitos; em outra função, pode estar mais ligada à precisão das informações transmitidas entre setores.

Um processo conduzido com critérios busca reunir evidências sobre essas competências, em vez de depender apenas de impressões. A simpatia durante a conversa, a desenvoltura ou a identificação pessoal com o entrevistador não deveriam determinar a escolha. Uma pessoa mais reservada pode apresentar excelente capacidade técnica e colaboração. Da mesma forma, falar com segurança sobre o próprio desempenho não comprova, por si só, que as competências necessárias estejam presentes.

A participação de um profissional qualificado contribui para organizar essa análise e relacionar as informações obtidas às necessidades da vaga. O psicólogo que atua em recrutamento e seleção pode agregar conhecimentos sobre comportamento humano, relações de trabalho e métodos de avaliação. Esse trabalho exige preparo técnico e responsabilidade: não se trata de adivinhar personalidades, rotular candidatos ou prometer uma contratação sem riscos. Trata-se de fundamentar melhor uma decisão que envolve pessoas e o funcionamento da empresa.

Também é necessário olhar para os critérios utilizados. Preferências pessoais não podem ocupar o lugar das exigências profissionais. Quando a escolha se apoia em afinidades ou em uma ideia vaga de que alguém “tem o perfil da empresa”, diferenças podem ser confundidas com inadequação. Uma equipe não precisa ser formada por pessoas iguais. Precisa de condições para que profissionais com características distintas consigam trabalhar com respeito, responsabilidades claras e objetivos compartilhados.

Esse cuidado interessa especialmente às pequenas empresas, nas quais o proprietário ou uma liderança costuma acumular a gestão das pessoas com outras tarefas. Não ter um departamento próprio de Recursos Humanos não impede a busca por apoio especializado. O suporte pode ser organizado conforme a necessidade do negócio, ajudando a definir a vaga, conduzir a seleção e planejar a entrada do novo colaborador. A dimensão da empresa não diminui a importância dessas decisões.

Ainda assim, selecionar com cuidado é apenas uma parte do trabalho. A contratação precisa ser acompanhada de orientação inicial, comunicação clara e condições para aprender. Não é coerente cobrar resultados de quem não recebeu informações suficientes sobre o que fazer ou a quem recorrer. Quando há dificuldades ou saídas frequentes, é preciso examinar também a liderança, a organização das atividades e as condições oferecidas, em vez de concluir que o problema está sempre nas pessoas contratadas.

Nenhum processo seletivo elimina todas as incertezas. Pessoas e organizações mudam, e o desempenho também depende do contexto em que o trabalho acontece. Entretanto, decisões apoiadas em critérios claros permitem compreender melhor as escolhas e identificar o que precisa ser ajustado. Para a empresa, isso representa mais cuidado com o tempo e os recursos investidos. Para o candidato, representa respeito à sua trajetória e à oportunidade que está sendo apresentada.

Contratar bem começa antes da entrevista e continua depois da admissão. Vai além de encontrar um currículo atraente: envolve compreender o trabalho, reconhecer competências e assumir a responsabilidade pela relação que será construída. Quando a gestão de pessoas recebe atenção profissional, a contratação deixa de ser apenas uma resposta à urgência e passa a integrar o planejamento do negócio.

Patrícia Pires de Matos

Psicóloga e especialista em Psicologia Organizacional