Quando o problema parece ser o sexo, mas vai muito além da cama

É comum alguém procurar psicoterapia dizendo: “Meu problema é sexual”. Um casal chega porque quase não faz mais sexo. Uma pessoa solteira relata dificuldade para se envolver. Outra diz que perdeu o desejo ou que sempre se apega a quem desaparece depois da intimidade. A queixa parece estar na vida sexual. Mas, muitas vezes, quando compreendemos melhor aquela história, percebemos que o sexo é apenas uma das partes visíveis de algo maior.

Às vezes, o problema que aparece na cama começou durante o dia: em uma discussão não resolvida, na sensação de não ser ouvido, na sobrecarga, na falta de carinho, na insegurança com o próprio corpo, no medo de rejeição ou na dificuldade de confiar. Por isso, falar sobre dificuldades sexuais também pode significar falar sobre autoestima, ansiedade, comunicação, intimidade e vínculos.

Em alguns casais, um dos parceiros reclama: “Ele não me procura mais” ou “Ela nunca tem vontade”. A interpretação surge rapidamente: “Não sou mais desejado”, “Existe outra pessoa” ou “Nosso relacionamento acabou”. Entretanto, podem existir cansaço, estresse, ressentimento, distanciamento emocional ou uma relação tão marcada por cobranças que até a aproximação física passou a ser vivida como obrigação. Aumentar apenas a frequência sexual talvez não alcance o que realmente está acontecendo.

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, compreendemos que a forma como interpretamos uma situação influencia emoções e comportamentos. Imagine que alguém tente se aproximar do parceiro e escute: “Hoje estou muito cansado”. O fato é uma recusa naquele momento. Mas o pensamento automático pode ser: “Ele não sente mais atração por mim”. Surgem insegurança, cobrança ou afastamento. O parceiro, sentindo-se pressionado, pode se afastar ainda mais. Forma-se um ciclo em que a tentativa de resolver o problema ajuda a mantê-lo.

Para quem está solteiro, outras questões aparecem. Algumas pessoas vivem relações sexuais, mas têm dificuldade para construir intimidade. Outras desejam um relacionamento, porém se afastam quando alguém se aproxima emocionalmente. Há também quem se envolva repetidamente com pessoas pouco disponíveis e depois se pergunte por que escolhe quem não consegue permanecer.

Nesses casos, talvez não estejamos falando apenas de sexo. Podem existir medo de rejeição, dificuldade de confiar, necessidade de validação ou crenças sobre o próprio valor. Buscar encontros por desejo e prazer não é, por si só, um problema. Mas alguém pode perceber que precisa constantemente ser desejado para se sentir atraente ou importante e, pouco depois de uma confirmação, volta a precisar de outra.

O comportamento pode ser parecido, mas o significado psicológico é diferente. Não é a quantidade de relações sexuais, a frequência ou o estado civil que, isoladamente, indica sofrimento. Uma pergunta mais útil é: qual função aquilo está desempenhando na vida da pessoa? Sexo pode ser prazer, intimidade e conexão, mas também tentativa de diminuir solidão, provar valor, evitar abandono ou manter alguém por perto.

Outro aspecto comum é a ansiedade de desempenho. A pessoa deixa de viver o momento e passa a se observar como se estivesse sendo avaliada: “Será que estou agradando?”, “Será que meu corpo está bonito?”, “Será que vou conseguir?”. Quanto mais tenta controlar a experiência, mais ansiosa pode ficar, e o encontro passa a funcionar como um teste de aceitação.

É por isso que, na psicoterapia, uma pergunta como “o que está acontecendo na sua vida sexual?” pode abrir muitas outras: como você se sente nessa relação? Consegue dizer o que deseja? Como reage à rejeição? O que pensa sobre seu corpo? Precisa se sentir desejado para se sentir valorizado? Consegue construir intimidade? Existe alguma mágoa ainda não conversada?

Talvez a pessoa procure terapia querendo apenas “melhorar o sexo” e perceba que também precisa aprender a conversar, estabelecer limites, lidar com rejeição, diminuir a autocobrança ou compreender padrões afetivos.

Nem toda dificuldade sexual tem origem emocional. Questões físicas e de saúde também podem interferir e, quando necessário, precisam de avaliação adequada. Ainda assim, a sexualidade não existe separada da nossa história: levamos para a intimidade pensamentos, inseguranças, expectativas, experiências e maneiras de nos relacionar.

Por isso, às vezes, alguém chega à terapia dizendo: “Acho que meu problema é o sexo” e, ao longo do processo, percebe que talvez estivesse tentando resolver na cama aquilo que precisava ser compreendido muito além dela.

Patrícia Pires de Matos

Psicóloga Cognitivo-Comportamental e Psicopedagoga

CRP 06/70064

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