O que nos faz desejar alguém? Sexo, química, atração e amor.

No dia 6 de setembro, popularmente conhecido como Dia do Sexo, muito se fala sobre prazer, relações sexuais e intimidade. Mas falar de sexo também pode significar falar sobre algo que começa muito antes do contato físico: o desejo.

Afinal, o que faz uma pessoa despertar nossa atenção enquanto outra, aparentemente tão bonita ou interessante, não provoca absolutamente nada? Por que algumas conversas terminam e são facilmente esquecidas, enquanto outras permanecem na nossa cabeça? O que existe em determinados olhares, vozes, cheiros, gestos ou maneiras de sorrir que desperta uma atração difícil de explicar?

É nesse momento que muitas pessoas recorrem a uma palavra bastante conhecida: química. “Não sei explicar. Simplesmente rolou uma química.”

Mas o que chamamos de química entre duas pessoas não depende apenas da aparência ou de uma reação física. A atração humana envolve características pessoais, experiências anteriores, contexto, expectativas, pensamentos, emoções e até a maneira como nos sentimos quando estamos perto daquela pessoa.

E, é justamente por isso que entender o desejo pode nos ensinar muito mais do que imaginamos sobre sexo — pode revelar também algo sobre nós mesmos, nossos vínculos e a forma como nos relacionamos.

A psicologia social aponta fatores que podem favorecer a atração. A proximidade aumenta as oportunidades de contato e familiaridade. A semelhança em valores, interesses e humor pode criar a sensação de “essa pessoa me entende”. A reciprocidade também importa: perceber que alguém demonstra interesse ou admiração pode aumentar nosso próprio interesse.

Talvez, então, a atração não esteja somente em quem o outro é, mas também em quem nos sentimos quando estamos perto dele. Existem pessoas diante das quais nos sentimos mais bonitos, interessantes, leves ou desejados. Às vezes, quando dizemos “essa pessoa mexe comigo”, parte do que nos atrai é justamente a experiência emocional que ela desperta em nós.

Mas desejo e amor são a mesma coisa? Não necessariamente. O psicólogo Robert Sternberg propôs que o amor pode envolver três componentes: paixão, intimidade e compromisso. A paixão está ligada à atração e à intensidade; a intimidade, à conexão e à confiança; e o compromisso, à decisão de investir e permanecer em uma relação.

Esses elementos podem aparecer em proporções diferentes. É possível sentir paixão intensa sem existir intimidade suficiente, assim como pode haver carinho e companheirismo com menor intensidade sexual. Portanto, sentir desejo não significa necessariamente amar, da mesma forma que amar alguém não significa sentir desejo com a mesma intensidade todos os dias.

Isso também ajuda a compreender uma situação que provoca culpa em muitas pessoas: sentir atração por alguém mesmo estando em um relacionamento. Estar comprometido não faz com que deixemos automaticamente de perceber pessoas interessantes ao nosso redor. Sentir atração, entretanto, é diferente de decidir o que fazer com ela.

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, diferenciamos pensamento, emoção e comportamento. Pensar não é fazer. Sentir não é fazer. Desejar não é necessariamente agir. Uma pessoa pode perceber uma atração e concluir: “Se senti isso, significa que não amo mais meu parceiro”. Essa interpretação pode gerar culpa e insegurança maiores do que a própria situação.

Algumas atrações ainda parecem muito intensas porque conhecemos apenas uma parte daquela pessoa. Sabemos como ela conversa, sorri, olha ou como nos sentimos ao seu lado. O restante pode ser preenchido pela imaginação. Surge, então, a idealização: construímos uma versão do outro também a partir daquilo que gostaríamos que ele fosse.

Por isso, uma distinção é fundamental: atração não é sinônimo de compatibilidade. A química pode aproximar duas pessoas, mas não garante que consigam construir uma vida juntas. Podemos desejar alguém com quem teríamos grandes dificuldades de convivência e amar alguém sem viver permanentemente a intensidade típica do início de uma paixão.

Sexo também pode assumir significados diferentes. Pode representar prazer e desejo, mas também intimidade, afeto ou confirmação de que se é amado. Algumas pessoas conseguem separar sexo e envolvimento emocional; outras percebem que, depois da intimidade física, começam a criar expectativas e sentimentos.

Relacionamentos duradouros ainda lidam com a diferença entre novidade e familiaridade. No início, quase tudo é descoberta e expectativa. Com o tempo, a familiaridade oferece segurança, intimidade e vínculo, enquanto a novidade diminui. Isso não significa necessariamente que o amor terminou; significa que relações reais se transformam.

Talvez por isso falar sobre sexo seja falar sobre muito mais: corpo, autoestima, desejo, rejeição, fantasia, conexão, segurança, vulnerabilidade e escolhas.

Neste Dia do Sexo, talvez a pergunta mais interessante não seja apenas “quem você deseja?”, mas “o que faz alguém se tornar desejável para você?”. É a aparência? A conversa? A admiração? A sensação de ser desejado? A dificuldade de conquistar? Ou a maneira como essa pessoa faz você se sentir?

Conhecer aquilo que desperta nosso desejo também é uma forma de conhecer melhor a nós mesmos. Algumas pessoas despertam nossos olhos; outras, nosso corpo; algumas, nossa curiosidade; poucas despertam verdadeira intimidade.

Talvez aquilo que chamamos de química explique o início de algumas histórias. Mas é o que fazemos depois dela que começa a mostrar se estamos falando apenas de atração, de sexo ou também de amor.

Patrícia Pires de Matos

Psicóloga Cognitivo-Comportamental e Psicopedagoga

CRP 06/70064