Na Festa do Peão, você está se divertindo ou tentando provar que é desejado?

A Festa do Peão transforma Barretos. A cidade fica mais cheia, os encontros aumentam, as pessoas se arrumam mais, saem com os amigos, paqueram, beijam e vivem experiências que, muitas vezes, fazem parte justamente da proposta de aproveitar a festa. Ficar com uma pessoa, com várias ou com nenhuma não é, por si só, um problema psicológico. A pergunta mais interessante é outra: o que está por trás dessa escolha?

Em alguns casos, a resposta é simples: vontade, atração e diversão. Em outros, porém, o comportamento pode estar ligado a uma necessidade intensa de se sentir desejado, aprovado ou valorizado. E é nesse ponto que a Terapia Cognitivo-Comportamental, a TCC, ajuda a compreender o que acontece para além do comportamento que todo mundo vê.

No modelo cognitivo desenvolvido a partir dos estudos de Aaron Beck, a maneira como interpretamos uma situação influencia aquilo que sentimos e, consequentemente, como agimos. Entre o acontecimento e o comportamento existem pensamentos, interpretações e crenças que podem surgir de forma muito rápida. Na TCC, muitos desses pensamentos são chamados de pensamentos automáticos.

Imagine alguém chegando à festa e percebendo que os amigos já estão paquerando ou ficando com outras pessoas. O fato é apenas esse. Mas a mente pode completar a situação com pensamentos como: “Se eu não ficar com ninguém, vão achar que ninguém me quer”, “preciso mostrar que ainda sou desejado”, “todo mundo está aproveitando menos eu” ou “se ninguém se interessar por mim, alguma coisa está errada comigo”.

Esses pensamentos podem provocar ansiedade, insegurança, comparação e urgência. A pessoa pode então agir não exatamente porque deseja aquele encontro, mas porque quer diminuir o desconforto que está sentindo. Quando consegue a atenção de alguém, experimenta um alívio: “Então eu sou atraente”, “então ainda tenho valor”. O problema é que esse alívio pode durar pouco.

A TCC também observa as crenças que podem estar por trás desses pensamentos. Algumas pessoas desenvolvem, ao longo da vida, ideias muito rígidas sobre si mesmas, como “não sou interessante o suficiente”, “preciso ser escolhido para ter valor” ou “se eu for rejeitado, significa que há algo errado comigo”. Essas crenças nem sempre aparecem de forma consciente, mas podem influenciar escolhas afetivas e comportamentos sociais.

Por isso, duas pessoas podem ter exatamente o mesmo comportamento em uma noite e viver experiências psicológicas completamente diferentes. Uma pode beijar várias pessoas, se divertir, voltar para casa satisfeita e não precisar transformar aqueles encontros em prova de nada. Outra pode fazer o mesmo, mas passar a noite verificando quem olhou, quem não olhou, comparando-se e tentando confirmar que é desejável.

O comportamento externo é parecido. A função emocional pode ser muito diferente. Na TCC, essa diferença importa. O foco não é julgar se alguém ficou com uma, duas ou cinco pessoas, mas compreender quais pensamentos, emoções e necessidades estão conduzindo aquele comportamento.

Isso também aparece entre os homens. Em alguns grupos, ainda existe a ideia de que ficar com muitas mulheres funciona como sinal de masculinidade, sucesso ou status. Pensamentos como “preciso pegar alguém hoje”, “meus amigos vão me zoar se eu não ficar com ninguém” ou “quanto mais eu conquistar, mais valorizado serei” podem transformar uma experiência de lazer em uma espécie de teste de desempenho.

As redes sociais intensificam esse processo. Durante grandes eventos, não existe apenas a experiência de estar na festa, mas também a sensação de precisar mostrar que está aproveitando. Camarote, roupa, aparência, companhia, curtidas, stories e quem ficou com quem podem alimentar comparações. Uma noite que deveria ser diversão pode, sem percebermos, virar uma avaliação do próprio valor.

Depois, podem aparecer outros pensamentos automáticos: “Por que ele não me chamou?”, “será que fui só mais uma?”, “será que passei vergonha?”, “será que ela gostou de mim?”. Aquilo que começou como busca de validação pode terminar em mais insegurança e em uma nova necessidade de confirmação.

Isso não significa que toda paquera esconda baixa autoestima, nem que se divertir seja uma fuga emocional. A TCC evita explicações simplistas. O que ela propõe é observar padrões. Quando a necessidade de aprovação se repete, quando a rejeição é vivida como prova de desvalor ou quando a pessoa sente que precisa constantemente ser escolhida para se sentir bem consigo mesma, vale a pena olhar com mais atenção para esse funcionamento.

Uma pergunta pode ajudar: “Estou fazendo isso porque quero ou porque preciso provar alguma coisa?”. Outra é: “Se ninguém se interessar por mim hoje, isso realmente muda o meu valor?”. Questionar pensamentos não significa deixar de aproveitar. Significa fazer escolhas com mais consciência.

Talvez a verdadeira liberdade durante a festa não esteja em ficar com muitas pessoas, ficar com uma ou não ficar com ninguém. Pode estar em conseguir escolher sem transformar o desejo do outro em medida do próprio valor.

Porque, às vezes, o beijo dura alguns minutos. Mas a necessidade de se sentir suficiente pode estar pedindo atenção há muito mais tempo.

Patrícia Pires de Matos

Psicóloga Cognitivo-Comportamental e Psicopedagoga

CRP 06/70064