Quando a necessidade de ser amado se torna maior que o amor-próprio, relacionamentos podem se transformar em fontes de sofrimento emocional.
Junho é tradicionalmente conhecido como o mês dos namorados. As vitrines se enchem de corações, as redes sociais ficam repletas de declarações de amor e muitos casais aproveitam a data para celebrar seus relacionamentos. Mas, para algumas pessoas, esse período também pode despertar reflexões importantes sobre a própria vida afetiva.
Você já se perguntou por que algumas pessoas permanecem em relacionamentos que as fazem sofrer? Ou por que, mesmo percebendo que uma relação não está saudável, sentem enorme dificuldade em se afastar?
Embora cada história seja única, a psicologia tem demonstrado que, muitas vezes, o medo de ficar sozinho pode exercer uma influência significativa sobre as escolhas afetivas.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), desenvolvida por Aaron Beck, compreendemos que nossos sentimentos e comportamentos são influenciados pela maneira como interpretamos as situações e pelas crenças que construímos ao longo da vida. Essas crenças geralmente começam a ser formadas ainda na infância e podem influenciar profundamente a forma como nos relacionamos na vida adulta (BECK, 2013).
Pessoas que cresceram sentindo-se rejeitadas, pouco valorizadas ou emocionalmente inseguras podem desenvolver crenças como: “Não sou suficiente”, “Preciso ser amado para ter valor”, “Ninguém ficará comigo” ou “Não consigo ser feliz sozinho”. Embora essas ideias nem sempre sejam conscientes, elas acabam influenciando decisões importantes.
Quando isso acontece, o relacionamento deixa de ser uma escolha baseada no afeto e passa a ser uma tentativa de evitar sentimentos dolorosos, como a solidão, a rejeição ou o abandono.
É importante compreender que amar alguém e precisar de alguém são experiências diferentes. O amor saudável envolve afeto, parceria, respeito e liberdade. Já a dependência emocional surge quando a felicidade, a autoestima ou o senso de valor pessoal passam a depender exclusivamente da presença e da aprovação do outro.
Segundo Judith Beck (2021), pensamentos automáticos negativos podem gerar respostas emocionais intensas e comportamentos que mantêm o sofrimento psicológico. Assim, quando uma pessoa acredita que ficará sozinha para sempre caso um relacionamento termine, é comum que permaneça em situações que não lhe fazem bem.
Muitas vezes, o medo da solidão torna-se maior do que o sofrimento vivido dentro da própria relação. É nesse contexto que surgem comportamentos como a necessidade constante de aprovação, o medo excessivo do abandono, a dificuldade em estabelecer limites, os ciúmes intensos e a tendência a aceitar situações que ferem a própria dignidade.
A pessoa passa a investir toda sua energia emocional na manutenção do relacionamento, acreditando que perder o parceiro significaria perder também sua estabilidade emocional. Entretanto, relacionamentos saudáveis não são construídos sobre o medo.
O psicólogo Jeffrey Young, criador da Terapia do Esquema, descreve que algumas pessoas desenvolvem esquemas emocionais relacionados ao abandono e à privação afetiva. Esses padrões podem fazer com que o indivíduo busque desesperadamente segurança emocional nos relacionamentos, mesmo quando eles são fonte de sofrimento (YOUNG; KLOSKO; WEISHAAR, 2008).
O problema é que nenhuma relação consegue preencher completamente feridas emocionais antigas. Quando depositamos no outro a responsabilidade pela nossa felicidade, acabamos criando expectativas impossíveis de serem atendidas. Como consequência, aumentam os conflitos, a ansiedade e a sensação constante de insegurança.
Por outro lado, desenvolver autonomia emocional não significa deixar de amar ou não desejar companhia. Significa compreender que é possível construir vínculos afetivos sem abrir mão de quem somos.
A verdadeira segurança emocional não nasce da presença constante de alguém, mas da confiança que desenvolvemos em nós mesmos.
Nesse sentido, a psicoterapia pode ser uma importante aliada. O processo terapêutico ajuda a identificar crenças disfuncionais, compreender padrões repetitivos de relacionamento, fortalecer a autoestima e desenvolver habilidades emocionais mais saudáveis.
Muitas pessoas chegam ao consultório acreditando que o problema está apenas no parceiro ou no relacionamento atual. Ao longo do processo, descobrem que existem feridas emocionais mais antigas que continuam influenciando suas escolhas afetivas.
Buscar ajuda psicológica não é sinal de fraqueza. Pelo contrário, é uma demonstração de coragem e de compromisso com a própria saúde emocional. A terapia oferece um espaço seguro para compreender emoções, questionar crenças limitantes e desenvolver formas mais saudáveis de se relacionar consigo mesmo e com os outros.
Talvez a pergunta mais importante não seja se você ama alguém. Talvez a pergunta seja: suas escolhas afetivas estão sendo guiadas pelo amor ou pelo medo de ficar sozinho? Refletir sobre isso pode ser o primeiro passo para construir relacionamentos mais saudáveis, equilibrados e verdadeiramente satisfatórios.
Patricia Matos
Psicóloga Cognitivo-Comportamental
CRP 06/70064

