Alimentos têm primeira deflação do ano em SP, e nutrição de plantas entra no centro da conta

Os alimentos registraram a primeira deflação quadrissemanal do ano na capital paulista, e a origem desse alívio não está no varejo, mas na lavoura.  Na primeira quadrissemana de julho, todos os principais grupos  de alimentos recuaram, com taxa média negativa de 0,4%, segundo o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fipe. O preço que chega à mesa do consumidor começa a ser formado no campo, semanas antes, e depende diretamente da capacidade do produtor de colher em volume e a um custo competitivo, ainda que indústria, logística, câmbio e tributos também pesam na conta final.

Os números são consistentes com esse repasse, ainda que não o comprovem isoladamente. O café arábica acumula queda de 24% no campo neste ano, segundo o Cepea, com reflexo de 12% no supermercado; o óleo de soja recua 14% no varejo e o açúcar, 17%, também no varejo; e a arroba do boi gordo, no campo, caiu de R$ 367, em abril, para R$ 327 em julho de 2026. O tomate, que havia acumulado alta de 71% até junho, ficou 10% mais barato na primeira quadrissemana de julho. Em comum, todos respondem à mesma variável: quando há oferta, o preço tende a ceder.

O feijão reforça essa leitura pela via oposta: com oferta menor, subiu 6,1% em 30 dias e acumula elevação de 47% no ano. A estabilidade de preços ao consumidor está, portanto, ligada à produtividade da lavoura, que depende de clima, solo, manejo e tecnologia, e na qual a nutrição das plantas é um dos fatores decisivos.

Na simulação do Projeto Campo Futuro, conduzida pelo Cepea em parceria com a CNA para a safra 2025/26, o principal fator de pressão sobre a margem foi a alta de 17,7% nos gastos com fertilizantes, enquanto o preço médio projetado da soja recua 13,3%: movimento apenas em parte compensado por quedas em sementes (-9,3%), defensivos agrícolas (-6,1%) e operações mecânicas (-0,3%). O resultado é uma margem mais apertada: em Sorriso (MT), estima-se que sejam necessárias 57 sacas por hectare para cobrir o custo operacional efetivo e 77 para quitar o custo total, contra uma produtividade média de 59 sacas nas últimas cinco safras.

Na soja, um dos principais produtos da pauta exportadora do agronegócio brasileiro, esse peso aparece de forma direta. Segundo o boletim de custos da Aprosoja/MS (setembro de 2025), que considera soja IPRO, produtividade de 53 sacas por hectare e preço de R$ 120 por saca, os fertilizantes são o principal componente do custeio da lavoura na safra 2025/26, respondendo por quase 40% desse bloco. Em relação ao custo variável total, estimado em R$ 5.525,07 por hectare, os fertilizantes equivalem a cerca de um quarto, o correspondente a 11,6 sacas de soja por hectare.

Ainda que a nutrição não seja o único item de custo, seu peso é grande o bastante para que qualquer ganho de eficiência na adubação alivie a pressão sobre a margem do produtor. Em outras palavras, colher mais a um custo competitivo depende de decisões tomadas dentro da porteira, e a nutrição vegetal é uma delas. 

Por isso, a deflação de julho, embora positiva, é conjuntural, não uma conquista estrutural. Ela nasce de um ciclo favorável de oferta que pode se inverter na próxima entressafra: o arroz já sinaliza reação, o café voltou a subir no início do mês e o feijão mostra, na prática, o que acontece quando falta produto. Sustentar preço baixo na gôndola ao longo do tempo não é função do varejo, mas depende de safras previsíveis, de custo de insumo sob controle e de uma cadeia de nutrição vegetal que não fique refém de fatores externos. É esse o ponto que separa um alívio pontual de uma política de abastecimento.

Leonardo Sodré, CEO da GIROAgro, resume o desafio à frente: “O Brasil construiu uma das agriculturas mais eficientes e competitivas do mundo, mas precisa avançar também na construção de políticas estruturantes que fortaleçam sua segurança produtiva, tecnológica e comercial”.